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O cinema branco e a dificuldade dos artistas negros

Atualizado: 24 de abr. de 2022

Homens brancos representam 75,4% dos diretores e 59,9% dos produtores.

Eduarda Carvalho - 22 de novembro de 2021

 

Chadwick Boseman, interpretou o Pantera Negra em filme da Marvel

A arte, de maneira geral, se encontra muito presente na vida de todas as pessoas, seja através da música, literatura, cinema, teatro ou alguma outra demonstração. Contudo essa arte e esse mundo artístico que alcança tantas pessoas pode ser considerado diverso e inclusivo? As pessoas negras que consomem essa arte se sentem representadas pela mesma?

“Você não sabe a alegria de um garoto preto em ver um personagem como o Pantera Negra. Na minha época de adolescente, eu assistia os desenhos e os quadrinhos com os heróis todos brancos, eu criança simples assistindo a televisão, eu não me enxergava” - Djalma Calmon

No ano de 2016 a ANCINE realizou uma pesquisa com o intuito de expor as desigualdades que ainda existem dentro do cenário audiovisual brasileiro. Nesse estudo foram analisados 142 filmes nacionais, e os resultados apresentaram números que não são novidade, mas não deixam de ser assustadores. Homens brancos representavam 75,4% dos diretores e 59,9% dos produtores das obras analisadas, enquanto mulheres negras ficaram de fora de diversas categorias, não aparecendo nem como diretoras nem como roteiristas. Tratando-se de elenco, as mulheres representaram 40% do mesmo, enquanto os negros apenas 13,3% , em 75,3% dos longas nacionais, os negros são, no máximo, 20% do elenco.

Apesar desses números absurdamente baixos, eles ainda são considerados grandes avanços em relação a épocas mais antigas. Á exemplo disso temos o ano de 1915, um período muito próximo à abolição e marcado pelas teorias racistas que ainda tentavam determinar negros como inferiores . Neste cenário, enquanto iniciava sua trajetória, brilhavam no cinema atores brancos que se pintavam para interpretar negros com a técnica do blackface, alegando que faltavam talentos. "Você não ter essa representação artística na literatura, na música, no cinema, na arte de uma maneira geral é um reflexo do racismo estrutural que a nossa sociedade passa" afirma o professor Djalma Calmon


"Viver de arte não é fácil, de uma maneira geral, mas sendo um artista preto ou preta é muito mais difícil, ainda mais se você não tiver uma estratégia de apoio." - Djalma Calmon

Djalma Calmon (41) é um homem negro formado em letras vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pelo curso livre de cinema também da UFBA, além de ter se graduado também em direção cinematográfica pelo Instituto de Cinema do Rio de Janeiro. Atua como professor de literatura e gramática há 14 anos, e mais recentemente de roteiro cinematográfico, além de possuir uma produtora chamada Sujeito Filmes, voltada para a produção de conteúdo para pessoas negras com pessoas negras ocupando todos os espaços dessa produção.


Apesar desse extenso e completo currículo, Djalma é um dos inúmeros artistas que entrou nesse meio com a constante insegurança do que lhe era reservado. Conforme dito pelo mesmo acima, o meio artístico já não é fácil, para pessoas negras essa dificuldade aumenta consideravelmente. Infelizmente ter talento, inteligência e capacidade já não é o suficiente para pessoas negras, é preciso ser enxergado, visto que o racismo da sociedade implementou a ideia de que pessoas negras por si só não possuem o que seja necessário para prosperar em qualquer que seja sua escolha de profissão. Dessa forma, quando uma pessoa negra chega em uma posição de poder, é por uma série de fatores, como talento, capacidade, competência desse profissional, a constante busca por excelência

Essa constante busca por excelência para obter sucesso obviamente torna toda essa jornada ainda mais cansativa, o que ocasiona muitas vezes na desistência de um sonho, mas para Djalma há motivo maior para persistir. “A vontade de se expressar e de vivenciar a arte, a vontade de contar as nossas histórias, de mostrar o mundo através do nosso olhar, sobre nosso ponto de vista, por isso que a gente segue fazendo arte dessa maneira, por isso que a gente não desiste nesse processo”


Isso leva a um debate levantado pela atriz Taís Araújo no podcast "Mano a Mano", apresentado pelo cantor e compositor Mano Brown, no qual a atriz afirma que é preciso que os autores e produtores brancos percebam que não sabem tudo sobre o povo negro, como eles acreditam que sabem. É necessário a contratação de pessoas negras para as produções, faltam criadores, escritores, diretores negros, vivencias negras, mas essa falta não está relacionada a falta de profissionais, isso há de sobra, o que falta são oportunidades, portas se abrindo para que esses profissionais mostrem tudo do que são capazes, falta tirar o discurso de inclusão e antirracismo da teoria e colocar em prática.


A pesquisa citada anteriormente, realizada pela ANCINE, mostra que a presença de um diretor ou roteirista negro é uma das maiores chances para que a produção conte com pessoas negras. Quando o diretor de um filme é negro, a chance do roteirista também ser negro aumenta em 43,1%, e a chance de haver mais um ator ou atriz negros no elenco aumenta em 65,8%; já quando o roteirista de um filme é negro, a chance de haver mais um ator ou atriz negros no elenco aumenta em 52,5%.


Essa concepção de que se sabe tudo sobre as pessoas negras ocasiona uma enorme estereotipagem dessas pessoas nas obras artisticas. Na primeira metade do XX, dezenas de filmes como O Nascimento de uma Nação (15), O cantor de Jazz (27), King Kong (31) e tantos outros usaram negros para interpretarem personagens exóticos, como africanos canibais e malignos caribenhos do vodu, ou até mesmo estupradores, bandidos, escravizados, bêbados, mendigos e, nos melhores casos, domésticas. E isso não ficou para trás como era de se esperar, até hoje os estereótipos a respeito de pessoas negras continua muito forte, o que ocasiona o pré-conceito que mais tarde leva ao preconceito. Em crítica a novela da Globo "Segundo Sol" que apesar de se passar na Bahia, contava com um elenco em sua maioria branco, o diretor e roteirista Anderson Jesus afirma em entrevista ao portal de notícias Mundo Negro que : "Nós negros não estamos em primeiro plano na cabeça de quem escreve as personagens"


"Nossas histórias geralmente quando são contadas, são contadas com a gente com a arma na mão" - Djalma Calmon


"Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem"

A constante falta de representatividade causa nas pessoas negras uma sensação de não pertencimento, uma sensação de incapacidade, como uma criança pode acreditar que ela se tornará um artista de sucesso se na sua televisão ela não vê nenhum personagem ou ator negro? A representatividade é importante para a construção da autoestima, de uma identidade, de um empoderamento. Ver apenas um grande artista negro, de grande nome como Will Smith ou Beyoncé, entre milhares de artistas brancos, além de não ser o suficiente, leva as pessoas a acreditarem que para conseguirem levar a arte como uma carreira será necessário ter um talento igualável ao desses nomes. Ao vencer o Emmy de melhor atriz dramática em 2015, sendo a primeira mulher negra a conquistar esse prêmio, a atriz Viola Davis afirma em seu discurso que: "Na minha mente, eu vejo uma linha. E, sobre essa linha, eu vejo campos verdes, flores lindas e belas mulheres brancas com seus braços esticados para fora sobre essa linha. Mas eu não consigo chegar lá, não sei o motivo. Eu não consigo superar essa linha. Quem disse isso foi Harriet Tubman (abolicionista e ativista norte-americana que falou isso em 1800). E deixe-me dizer, a única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem"


É importante que temas como esse sejam discutidos, pois infelizmente com o passar do tempo é algo que foi normalizado pela maioria das pessoas, e só através da fala e da exposição é possível mostrar que se precisa sim de mais artistas negros, mais produtores, diretores, roteiristas, atores, atrizes, produções negras, é preciso que todo o discurso bonito feito na teoria seja colocado em prática. Mas vale ressaltar que discussões desse gênero não podem ser resumidas apenas ao mês de novembro, conforme Djalma lembra quando ele fala que: "O mês de novembro é um mês pesado para a gente, somos chamados para fazer lives, debates, palestras, aulas temáticas, vídeos institucionais, é uma maravilha, mas temos outros onze meses no ano".


Há outros onze meses no ano que devem servir para discussões desse tipo, é preciso que constantemente seja trazido a tona o problema da falta de representatividade, que não está relacionado a falta de profissionais e sim a falta de oportunidade, pois infelizmente o avanço da sociedade contra o racismo só é feito a partir de uma constante e incansável luta.



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