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Modinha ou autoaceitação?

O cabelo black como símbolo de resistência.

Railson Oliveira - 06 de dezembro de 2021.

 

Vamos falar sobre autoaceitação? Mas afinal, o que é que cabelo tem haver com autoaceitação? De acordo com os dicionários, autoaceitação significa o ato de aceitar, aprovar e reconhecer positivamente a si mesmo, ou seja, ela tem a ver com o ato de você dar valor e importância para tudo aquilo que tem dentro de você.

De uns anos pra cá, nós afrodescendentes, começamos a nos aceitar e entender que não temos que ficar nos comparando ao padrão de beleza europeu, imposto pela sociedade, que sempre tenta colocar as pessoas brancas e de cabelos lisos como as mais bonitas, as perfeitas, seja em um filme, em uma série, em um clipe, ou até mesmo em um comercial de televisão.

Agora imagine você crescer consumindo esse tipo de conteúdo, será que isso não impactaria na forma como você se vê? Obviamente que todos nós gostamos de receber elogios e nos sentirmos encaixados em algum lugar, não é mesmo ?

 

“O que é que o cabelo fez pra ser chamado de ruim ?

O que é que o cabelo fez pra ser tão mal falado assim ?”

Banda Dom Pepo.

 

Você sabia que o Brasil é o país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo? De acordo com um estudo publicado pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica e Estética (ISAPS), o Brasil desbancou os Estados Unidos, que até então ocupava o primeiro lugar dessa lista, e que atualmente está em segundo lugar. Entre os procedimentos mais procurados está a rinoplastia, um procedimento que visa remodelar o nariz.


Obviamente que algumas pessoas recorrem à rinoplastia por questões de saúde, entretanto, sabemos que a maioria realiza esse procedimento por conta da estética, como é o caso das cantoras Ludmilla, Beyoncé e da influenciadora baiana Sthefane Matos, exemplos de artistas que se submeteram a cirurgia plástica com o intuito de se sentirem aceitas ou mais bonitas. Assim como o nariz fino é considerado “bonito”, o cabelo liso também o é, pela sociedade, que tenta impor o padrão de beleza que deve ser seguido por todo mundo.


Quem nunca ouviu alguém se referir ao cabelo crespo como difícil, rebelde, feio, duro, palha de aço, esponja ou ruim? Bom esses adjetivos, proferidos às pessoas negras, especialmente às mulheres, juntamente com a falta de representatividade na mídia e as propagandas de produtos químicos, induziram muitas mulheres a alisar seus cabelos. E para aquelas que escolhiam preservar seus cachos, dificilmente conseguiam encontrar produtos específicos para seus cabelos. Foi somente depois de muita luta que a indústria percebeu que era necessário produzir produtos específicos para esse tipo de cabelo.


O movimento negro da década de 1960, que aconteceu nos Estados Unidos, usou o cabelo black como um símbolo de resistência, representação e valorização da cultura afro. O grupo Os Panteras Negras, tinha como um de seus objetivos a aceitação da beleza negra e o cabelo natural. Uma das principais referências desse movimento foi a ativista Angela Davis,

Angela Davis, e seu cabelo black. Foto reprodução Revista Cult.

que desde jovem já usava o seu cabelo black, como uma forma de exaltar a sua beleza natural, sua cultura e intimidar os seus opressores.


E você pensa que acabou que esse preconceito aos belos cabelos cabelos black acabou? Pois, essa luta persiste até hoje, atualmente muitas mulheres sofrem tentando realizar a transição capilar, muitas acabam desistindo do processo, por diversos motivos, seja por ter medo de cortar seus cabelos, por achar que as pessoas vão achar feio, ou pelo fato de já ter usado tanto produto químico que o seu couro cabeludo se encontra totalmente danificado.

Confira agora alguns depoimentos de mulheres que assumiram o seu black.

Foto - Geisi Dias - Arquivo pessoal

“Quando criança, eu era muito criticada por conta do meu cabelo, as pessoas costumavam dizer, “você é tão bonitinha, mas seu cabelo e muito armado”, eu não entendia muito o que isso significava, mas quando fui crescendo, comecei a compreender que isso tudo era porque eu não tinha um cabelo “bonito”, e foi assim que comecei a deixar o meu cabelo preso, e não deixava minha mãe soltar ele de de jeito nenhum, eu passei a sentir vergonha dele, mas com o tempo, comecei a ver outras meninas com o cabelo igual ao meu, e a partir daí, fui percebendo que não tinha sentido nenhum eu ter vergonha do meu cabelo. Foi quando eu cheguei em casa, me olhei no espelho, e disse para mim mesma, você é linda de qualquer jeito, e desde então eu passei a aceitar quem realmente eu sou. Sem medo do que as pessoas vão falar, aprendi a amar cada parte de mim, hoje tenho uma filha, e ela tem o cabelo black, e vou ensiná-la desde pequena a se amar e não ter vergonha de ser ela mesmo e amar seu cabelo, do jeitinho que ele é.”


Foto - Maira Lissa - Arquivo pessoal

“Decidi aceitar o meu cabelo natural aos 16 anos. Foi quando eu parei de alisá-lo. Já escutei tanta coisa desde então, já chegaram a dizer que eu não penteio ele, que meu cabelo fede e que eu só estou assim porque é moda, uma vez falaram que se fosse no tempo dela, ela iria me dar um produto para alisar ele todo, o meu cabelo significa resistência, ele faz parte de quem eu sou, e hoje eu tenho muito orgulho da decisão que eu tomei lá atrás de assumir o meu cabelo crespo.”



Foto - Geisiane Beatriz - Arquivo pessoal

“Meu cabelo era muito volumoso, e eu me sentia um pouco incomodada com isso, foi quando eu decidi alisá-lo. Eu me arrependo profundamente por ter tomado essa decisão, a química fez com que meu cabelo caísse muito e o deixou bastante fraco, e hoje eu não deixo de usar o meu cabelo natural por nada, às vezes eu coloco tranças para variar um pouquinho, mas amo o meu cabelo natural, do jeitinho que ele é. Hoje em dia a minha autoestima melhorou muito, eu consigo aceitar o volume do meu cabelo black, e mesmo com as pessoas dizendo que eu tenho que abaixar ele ou dar prancha, eu não me importo mais com isso, me amo dos pés a cabeça, e a minha filha também vai aprender a amar o seu cabelo natural.”


Foto - Paloma Almeida - Arquivo pessoal

Eu sempre gostei do meu cabelo cacheado, entretanto, eu não aceitava muito o volume que ele tinha. Por isso, já cheguei a passar um tempo com ele liso para me sentir aceita. Principalmente por ter chegado recentemente numa outra cidade e querer ser igual às pessoas de lá. Só que com o meu cabelo crespo seria necessário aplicar química mais forte, me fazendo ser refém da chapinha e do secador. Diante disso, meu cabelo não aguentava mais, ficou quebradiço e por mais que eu cuidasse não conseguia melhorar seu aspecto. Foi aí que com a influência da aceitação do crespo da minha irmã e pelo movimento de autoaceitação que está crescendo bastante na internet, comecei a procurar dicas de como deixar ele cacheado e ao mesmo tempo sem muito volume, cogitei até em fazer um permanente afro, mas desisti, sendo assim o início do meu processo de autoaceitação, onde passei a me cuidar mais e não ficar me comparando com as outras pessoas, acabei deixando de lado todas as químicas e me assumir natural. Na época houveram críticas, diziam para eu pentear o meu cabelo e coisas desse tipo, mas com apoio da minha mãe eu não desisti, Sempre perguntava a ela se meu cabelo estava bonito, antes de sair de casa, e juntamente com meu irmão diziam que sim, e era isso que me importava, a opinião das pessoas que eu amo. Recentemente descobri que minha mãe mandava o meu irmão dizer que meu cabelo estava lindo, essa "mentirinha" me fez forte e eu tenho certeza que ela sabia que eu não conseguiria passar por tudo isso sozinha. Ela sabia do meu desejo de ter meu cabelo do jeito que é hoje. Atualmente, a maioria das pessoas costuma elogiar, mas ainda tem algumas que fazem comentários sarcásticos, porém, eu não me importo, pois aprendi a gostar dele do jeito que ele é.

Usar o seu cabelo black não é modinha, vai muito além disso, significa aceitar quem você é de verdade, e entender que você não precisa ficar se submetendo a processos químicos, ou ficar prendendo o cabelo, só para se encaixar em um padrão imposto pela sociedade.



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